A INFLUÊNCIA DA MÚSICA AFRICANA / ANGOLANA EM PORTUGAL E VICE VERSA

 

UNIVERSIDADE INDEPENDENTE

Curso : Relações Internacionais, 3º Ano, Turma C

Cadeira : Cultura Portuguesa

Aluno : Antónia Gamboa

Número : 97543

Aluno : Ilda Mafalda Pinto

Número : 970482

Ano Lectivo : 1998/99

 


 

INTRODUÇÃO

 

Para falarmos da Influência da Música Africana/ Angolana em Portugal e vice Versa temos que recuar no tempo e voltar ao século XV aquando da chegada dos africanos a Portugal .

Estes eram uma novidade para a sociedade portuguesa da altura e como tal a sua maneira de ser e estar despertou o interesse dos portugueses. Essencialmente o facto destes estarem sempre alegres a cantar e a dançar.

Assim os portugueses começaram a se interessar por alguns dos seus hábitos, neste caso concreto , pela música e dança. Os portugueses começam então a dançar a fofa , um estilo de música africano, e os brasileiros por sua vez dançavam mais o lundum . Há quem diga que a junção destas danças iria dar origem a uma dança baptizada no Brasil com o nome de fado que mais tarde iria dar origem ao fado-canção sentimental, no canto da Severa.

Contudo esta nova canção despertou uma certa polémica pois a quem diga que o fado tem uma relação directa com a morna ( tipo de música cabo-verdiana ) e há quem quem diga que o fado tem uma origem africana ( étnica ).

Esta relação entre África e Portugal leva-nos então para um intercâmbio cultural, neste caso musical entre Portugal e África . Músicos como o Duo Ouro Negro, Bonga , Rui Mingas, Eduardo Nascimento, Bana, Eduardo Paim, Waldemar Bastos, Paulo Flores, Dany Silva, Cesária Èvora etc. , trouxeram a sua música para Portugal. Músicos como Sérgio Godinho e Paulo de Carvalho vão tendo nos seus grupos músicos africanos como também estão a assumir muitos dos seus ritmos.

Apesar deste intercâmbio a música africana tem sentido várias dificuldades em se afirmar em Portugal pois esta além de ser difícil de encontrar nas discotecas , é vendida a um preço inferior ao seu valor. Facto que não se verifica em outros países europeus.

 

 

OS NEGROS NA VIDA SOCIAL PORTUGUESA DESDE O SEC. XV

 

A presença dos africanos data do século XV. Estes integravam-se na paisagem urbana portuguesa através do desempenho das mais variadas funções subalternas, eram escravos e constituíam a arraia miúda ou os «pequenos» como lhes chamou o cronista Fernão Lopes.

Estes no entanto e de acordo com um anónimo Italiano conhecedor de Lisboa , distinguiam-se da população local por serem "descontraídos e alegres". Em contraste notava que, os portugueses andavam sempre tristes e melancólicos, não tendo com hábito rir, comer nem beber com medo de que os vissem, os escravos por sua vez andavam sempre alegres, riam-se , cantavam, dançavam e embriagavam-se publicamente, em todas as praças.

É esta disposição, aliás, que vai marcar a trajectória do escravo negro africano e seus descendentes em Portugal desde meados do séc.XV quando ainda é mostrado nos círculos da corte como curiosidade recém adquirida, ao lado de papagaios e macacos até a sua absorção pela sociedade como um todo após quatro séculos de silenciosa mas alegre convivência.

Os escravos aparecem não apenas nas primeiras festas e solenidades cortesãs mas também as próprias disposições legais (quase sempre de carácter restritivo ou punitivo) com que a partir do século XV o poder real começa a intervir nas relações dos cativos com a sociedade em geral, indicam de forma muito clara a presença dos negros africanos em todas as oportunidades em que houvesse dança, cantos e bebidas.

A noticia mais antiga que envolve figuras de negros africanos e suas danças em Portugal é de 1451 nas festas realizadas de 13 a 25 de Outubro em Lisboa em comemoração do casamento por procuração da Infanta D. Leonor.

Esta permissão dada aos negros para alegremente se entregarem às suas danças nativas, em clima de festa em plena Lisboa, constituía uma promoção oficial. Nesta época as camadas populares urbanas não possuem formas organizadas de lazer excepto quando dos desfiles das corporações por ocasião das festas oficiais e nas procissões.

No entanto nem sempre os negros africanos tinham liberdade de divertir-se e eram controlados o tempo todo. Esta repressão foi ao ponto de existir uma resolução da Câmara Municipal de 27 de Novembro de 1469, que proibia a venda de vinho nas tabernas aos cativos, isto porque eles reuniam-se depois do trabalho em tabernas onde comiam, bebiam e cantavam.

Mais tarde em 1502, o rei D. Manuel, revigorando e ampliando itens anteriores ás Ordenações estabelece que «Nenhum escravo possa comer em taberna ou outra qualquer venda» bem como os ordenava «que estas não estejam abertas depois do sino corrido.»

Cerca de vinte anos mais tarde D. João III expediu um alvará em 1521, pelo qual ordenava «que qualquer escravo que fosse achado jogando na corte ou na cidade de Lisboa qualquer jogo, fosse preso e açoitado ao pé do pelourinho, onde lhe dariam vinte açoites ou pagasse seu senhor 300 reais ... quando não quisesse ser açoitado.»

Esse tipo de legislação envolvendo a figura dos escravos negros em Portugal permite concluir o quanto as relações entre cativos e a sociedade em geral foram muito mais ricas e diversificadas do que se tem imaginado.

Foi assim que aos poucos e com o passar do tempo que os africanos foram-se enraizando em Portugal transmitindo de uma forma espontânea a sua maneira de estar através da sua originalidade em todos os aspectos e sobretudo através da sua música.

 

 

OS NEGROS NA ORIGEM DO FADO - CANÇÁO EM LISBOA

 

A criação da canção popular urbana denominada fado ocorreu durante a primeira metade do século XIX e representou um momento do processo histórico - cultural de acomodação das camadas mais baixas de Lisboa à nova estrutura burguesa que, após as reformas legislativas de Mousinho da Silveira, permitiria anunciar com o código civil de 1867 a liquidação das velhas relações de produção consuetudinárias, de origem medieval.

Em consequência do terramoto de 1755 a população foi redistribuída pelo espaço físico da capital o que não só levou a criação de novos bairros, como os da Alegria e do Rato, como contribuiu para aumentar a pressão sobre as áreas residenciais mais modestas do centro, como as de Alfama, Bairro Alto, Mouraria e Madragoa, que se transformariam no século XIX em densos núcleos de população proletária.

Além dos negros forros de Lisboa, havia cerca de cinco mil negros escravos e livres só no Alentejo, no século XVIII que acabavam por se distribuir pelas baixas camadas da cidade no desempenho das mais variadas actividades urbanas , era nesses redutos de gente branca pobre ou marginal que iam, eles também, concentrar-se. Tendo nascido desta intimidade entre brancos e negros indícios históricos que demonstram terem sido relações entre os dois grupos étnicos muito mais profundas e constantes do que se tem imaginado.

Embora historiadores e cronistas só se refiram normalmente a figuras isoladas de negros e mestiços ligados às elites no século XVIII o poeta brasileiro Domingos Caldas Barbosa e o tocador de viola Joaquim Manuel, ambos mulatos e interpretes de modinhas e lundus, no século XIX o mestre de danças Preto Herculano, o mulato pianista de bailes etc.. a verdade é que entre as camadas baixas do povo, as interinfluências não foram tão difusas, mas integram-se num processo comum.

 Como a população negra já se encontrava de tal forma integrada nas camadas pobres da cidade, habitando os mesmos bairros e acomodada a várias actividades legais ou extra legais, não se estranha que no campo da organização do lazer (festas, danças e cantos) o intercâmbio e influência entre brancos e negros fosse comum e intenso.

Neste contexto a mais antiga informação sobre a existência de uma música e dança urbanas de negros em bairro determinado de Lisboa , é a que revela a existência da fofa em Alfama em 1730. Significa dizer que a dança denominada fofa já era cultivada nas ruas pelos negros de Alfama na primeira metade do século XVIII, provavelmente logo após ter sido introduzida em Portugal por marujos ou negros chegados do Brasil.

A fofa foi inicialmente considerada uma dança indecente, maliciosa pertencente as camadas baixas. Mas a fofa , "por ser tão giribandeira" subiu as camadas médias, passando a interessar não só à «frangona, mas a muchacha à toila; e a discreta».

A fofa, era contemporânea de outra dança negro-brasileira o chamado lundu ou lundum que também chegou a Portugal em meados de setecentos com o nome não bem fixado.

É curioso referir que as primeiras noticias sobre a existência dessas dois tipos de danças de origem negra: a fofa e o lundu, são praticamente da mesma época no Brasil e em Portugal.

Na verdade já pelos meados do século XVIII, a fofa estava de tal forma incorporada no gosto popular em Portugal que os visitantes estrangeiros a apontavam como a dança nacional por excelência.

Um dos muitos observadores da sociedade Portuguesa do inicio da segunda metade de setecentos foi um espião militar francês M. Dumouriez que descreveu a forma como era dançada a fofa: "A dança nacional é chamada fofa; é dançada a dois, tal como o fandango, ao som de uma viola; os movimentos são extremamente indecentes, pois imitam de perto o momento do orgasmo ; o dançarino geralmente acrescenta à gesticulação maneios obscenos e palavras lúbricas, a que o público acha graça".

Passados dez anos outro estrangeiro, o oficial inglês William Dalrymple, teria a mesma impressão do francês, e nas suas travels through Spain and Portugal in 1774 praticamente repetia-lhe as palavras. "A fofa, dança característica deste país assim como o fandango é de Espanha, foi dançada no entremez por um preto e uma mulher, foi a coisa mais indecente a que já assisti, e só concebível em bordeis embora não pareça incomodar ninguém; pelo contrário, as mulheres permaneciam tranquilas, enquanto os homens aplaudiam o espectáculo."

Mas os estrangeiros não eram os únicos que davam a fofa como dança urbana típica portuguesa, mas os próprios naturais do país, a fofa era já considerada como característica do povo português.

No entanto, era curioso o facto de ter sido equiparada ao " lundum dos brancos e mulatos " do Brasil, porque tanto a fofa como o lundum provinham das danças de roda típicas dos africanos, a que os portugueses genericamente chamavam batuques, mostrava que a comparação se devia ao facto de tanto uma quanto outra se terem afastado bastante da sua raiz negra, a ponto de se terem transformado, a primeira, em dança de brancos em Portugal, e a segunda, em dança de brancos e mulatos no Brasil.

Como ambas as danças coincidiam no aproveitamento, na sua coreografia do estalar dos dedos imitador de castanholas do fandango, e do movimento corporal dos dançarinos na simulação das umbigadas dos batuques dos negros , antecipando-se assim o sucesso que já no século XIX, viria a obter uma nova dança contraponteada de cantos que em muitos pontos, fundia fofa e lundum: a dança baptizada no Rio de Janeiro com o nome de fado.

Assim, tal como aconteceu no Brasil, também em Portugal o fado herdeiro do lundum, e por isso inicialmente coisa apenas de negros e mulatos, ia passando gradualmente para os redutos de brancos das camadas baixas, principalmente nos locais públicos que preenchiam a função de centros dos mais pobres e dos marginais ou seja as tascas frequentadas por marujos da Madragoa.

O crescente predomínio deste tipo de gente da sociedade branca nas danças e cantos, até então presos ao estilo particular de pretos e mulatos, ainda muito influenciados pelas tradições da cultura africana, que ia conduzir a festa dos fados através de modificações no instrumental e acrescentamento de novas formas de canto e acompanhamento às novidades dos improvisos e desafios, da glosa de quadras e décimas e, finalmente, a criação do fado-canção sentimental, no de canto da Severa.

A principal contribuição dos novos cultores das danças do fado na área do instrumental foi a substituição pela guitarra na primeira metade do século XIX, da tradicional viola portuguesa de cinco cordas duplas e doze cravelhas. E a guitarra, ao seu requintado som semelhante ao do cravo, também podia ser tocada mais soltamente, sob forma rasgada, o que fazia reviver características de acompanhamento da velha banza africana de quatro cordas.

A consciência histórica dessa dívida portuguesa para as origens negras da sua nova canção que levaria mais tarde os fadistas a chamarem carinhosamente às suas guitarras banzas.

 

 

Terá o Fado uma Origem Africana?

 

Esta questão tem suscitado muita polémica , uns dizem que sim outros dizem que não . Mas de acordo com o musicólogo angolano Jorge Macedo existe uma relação morna , é uma melodia sofrida e melancólica cantada com acompanhamento de guitarras, cavaquinhos e, muitas vezes de rebeca ou violino, faz lembrar o fado lisboeta ( musica Cabo Verdiana ) / fado.

Os portugueses dizem terem sido eles que influenciaram o fado e os cabo verdianos dizem que sim. Mas o fado tem uma origem africana (étnica).

Cabo Verde era uma ilha que não tinha nada e os portugueses foram lá buscar escravos que trouxeram consigo a morna. Daí que o fado tenha uma influência dos africanos . Porém não deixa de ser curioso que o fado e a morna do ponto de vista morfológico da música tem semelhança em tonalidade menor ( aquele choradinho : ai,ai... que saudade... )

 

 

Outras Influências

 

Actualmente por causa dos retornados a música portuguesa começou não só a ter como componente elementos da música saxónica rock etc…

Como se vê a música portuguesa está quase toda ela influenciada pelo rock excepto o fado, muito embora também já se cante o fado-rock.

Mas se repararmos num Sérgio Godinho, num Paulo de Carvalho não só estão a tocar com músicos africanos como também estão a assumir muitos dos seus ritmos. Inclusive Zeca Afonso, que viveu alguns anos em Moçambique, país que considerava a sua segunda pátria, foi dos primeiros a incorporar na sua música elementos negros, tendo, além disso, cantado poetas africanos, como Mitimáti Barnabé João. Fausto, nascido em Angola, seguiu-lhe os passos; graças a eles, poemas como " Namoro " , do angolano Viriato da Cruz, fazem hoje parte do imaginário português.

Mais recentemente, tem-se assistido à colaboração entre músicos africanos e portugueses, com Rui Veloso a participar no " Atravessando Rios " de José Mukavele, ou Sérgio Godinho a emprestar a sua voz a um dos temas do álbum " Sodadi Funáná ", de Dany Silva e Guto Pires ( Guineense ) que canta nos Sons da Lusofonia.

Como se pode verificar há uma grande influência da música africana na música portuguesa .

No entanto a música africana/angolana também recebeu empréstimo da música portuguesa. Muita vezes, está-se a ouvir uma música cujo o ritmo pode ser angolano mas se repararmos na melodia, nota-se a influência portuguesa. Por exemplo a música do mestre Elias D’ia Kimuezo em que os tons maiores e menores foram recebidos pelas suas guitarras.

Note-se que os angolanos só começaram a ter guitarras em grande quantidade

Nos anos 30 e mais nos anos 40-50. Portanto quem tivesse uma viola em Angola era rei - havia poucas pessoas com violas (excepto cabo-verdianos)

 

 

Fixação dos Primeiros Cantores Africanos em Portugal

 

Foi no final dos anos 50, com a chegada a Lisboa do Duo Ouro Negro que tudo começou. Iniciaram imediatamente uma extraordinária carreira internacional que os levaria a actuar nos principais palcos do mundo. Os seus temas de projecção em Portugal foram : " Muxima ", " Garota ", " Melowa " alcançaram enorme sucesso popular em Portugal, nunca mais igualado por nenhum outro artista de origem africana. A iniciativa africana de animação nocturna, em Lisboa coube aos dois angolanos com a criação, em 1962 da boite Sanzala.

Nos anos 60 e 70 outro cantor angolano distinguiu-se é o caso do cantor angolano Rui Mingas que veio para Lisboa para estudar e fazer atletismo , passando também a ser uma espécie de cantor oficial da Casa dos Estudantes do Império. No âmbito da Casa criaram um grupo que, fundamentalmente, interpretava música de Angola.

Embora Rui Mingas não tenha feito da música profissão gravou dois long – plays e vários Singles entre 1969 e 1974.

Nos anos setenta, um outro músico angolano, Eduardo do Nascimento, saltava do anonimato para as páginas dos jornais ao ser escolhido para representar Portugal no Festival da Eurovisão.

Bana cantor cabo-verdiano foi outro dos raros músicos africanos a conseguir alguma notoriedade em Portugal antes da Revolução de Abril. Bana é hoje uma verdadeira instituição: gravou mais de meia centena de álbuns. A semelhança do Duo Ouro Negro fundou o restaurante – discoteca "Monte-Cana" em plena época colonial, é o mais antigo estabelecimento do género em Lisboa.

Em 1989 veio para Lisboa o cantor angolano Eduardo Paim, onde começou por colaborar em discos de outros músicos africanos, sobressaiu como arranjador e multi-instrumentalista; dois anos depois, lançou " Luanda, Minha Banda " e, em Março de 1992, " Do Kaiaia ", álbuns muito tocados em todas as discotecas africanas. Paim, não hesita em afirmar: " A melhor música angolana está a ser feita em Lisboa ". Cita os nomes de Waldemar Bastos, Bonga e Paulo Flores.

Eduardo Paim veio para Lisboa, segundo diz, porque em Angola já nada

tinha a aprender: " Se ficasse em Luanda, ia ter de me sujeitar a uma certa mediocridade. Em Portugal, tenho mais condições para evoluir ".

O mesmo motivo invoca-o a generalidade dos músicos africanos que nos últimos anos se radicaram em Lisboa. E são muitos: Bonga, os Tropical Band e Waldemar Bastos, de Angola; Paulino Vieira, Celina Pereira e Kiki Lima, de Cabo Verde, ou os Tabanka Djazz, da Guiné-Bissau, para apenas citar os mais importantes.

Diferente é o caso de Paulo Flores, uma das mais recentes revelações da música angolana. Veio para Portugal muito novo, para estudar. Filho do então gerente duma das mais sofisticadas discotecas africanas de Lisboa o " Kudissanga ". Assim Paulo Flores cresceu a ouvir os ritmos de Angola e, em 1990, com apenas dezasseis anos, lançou o álbum " Kapuete Kamundanda ". O seu segundo LP, "Sassasa ", transformou-se de imediato num enorme sucesso tanto em Luanda como em Lisboa. Tentando explicar os motivos deste sucesso, o próprio Paulo Flores chama a atenção para a continuidade existente entre as duas cidades.

Ainda mais curiosa é a história do cabo-verdiano Dany Silva. Residente em Portugal há longos anos e regente agrícola de formação, a sua entrada no mundo das canções fez-se de forma espectacular quando, em 1981, lançou " Branco Tinto e Jeropiga " . O disco tinha pouco ou nada a ver com África e, a partir dele não era possível adivinhar a evolução do seu autor. Desde a sua chegada a Portugal em 1961 nunca mais pisara o chão das ilhas. Em 1981, porém regressa a Cabo Verde realizando concertos que atraíram milhares de pessoas – e, a partir daí, as suas visitas ao arquipélago tornam-se regulares.

Este facto revelar-se-ia determinante para a sua produção posterior: o seu segundo single, " Crioula de São Bento ", é já uma " estória " de imigração e com o álbum " Lua Vagabunda " assume por inteiro um som cabo-verdiano. A culminar este curioso e exemplar percurso de regresso a África, o cantor edita, em 1991, " Sodádi Funaná " .

O seu público não se restringe á comunidade africana. " Em Lisboa, há muita malta africana que vem ouvir os meus espectáculos. Mas, na província, são sobretudo portugueses e sempre me senti muito acarinhado ".

Dany Silva é proprietário de um pub, o " Pilon ", na Rotunda de Alcântara, onda junta amigos e admiradores.

Waldemar Bastos é também um dos muitos cantores angolanos residente em Lisboa. Quando se fixou em Lisboa, era já um nome importante na música angolana. O seu primeiro álbum, " Estamos Juntos ", foi gravado no Rio de Janeiro em 1983. Em 1990, já a viver em Portugal lançou " Angola Minha Namorada ". Em 1992 grava " Pitanga Madura ". Em 1993 gravou " Lisboa Palopeana ".

O cantor afirma que Lisboa esteve sempre presente através de um fado popularizado por Amália Rodrigues " Foi Deus ". O fado explica Waldemar, é uma lembrança antiga. Era ele menino e a rádio transmitia a voz de Amália. Por isso, quando chegou a Lisboa, não se sentiu no exílio: também aqui encontrou sinais da sua infância.

 

 

CONCLUSÃO

 

Na nossa opinião os famosos 500 anos de colonização de nada serviram em termos benéficos. Porque apesar de ser Portugal o país que recebe a maioria dos cantores africanos, não é em Portugal que eles se projectam porque é sabido que mesmo em relação aos cantores portugueses existem certos handicaps os quais não se conseguem ultrapassar.

Como exemplo temos o caso da Cesária Èvora que é promovida na França , de um Bonga que é promovido na Holanda e badalado por este mundo fora através de títulos, prémios e citações etc. O que dificilmente se obtém aqui em Portugal. É ainda o caso do Bana que ainda não lhe foi dado o direito de ter discos de ouro e platina sucessivos tendo sido a comunidade cabo verdiana que fez por ele aquilo que ele é hoje.

Temos Também o caso da Amália Rodrigues que é conhecida por esse mundo fora e que também não foi projectada por Portugal.

Infelizmente em relação aos cantores africanos esta situação manter-se-á ainda por muito tempo pelo menos até estes poderem editar os seus próprios discos visto que as suas músicas são vendidas na maioria das vezes " ao preço da banana " isto em Portugal porque na França , Holanda etc. a música africana é vendida pelo preço justo e em qualquer posto de venda que se vá.

Em contrapartida em Portugal na maioria das vezes é desprovida de qualquer valor cultural porque é imposto aos cantores africanos que adoptem um ritmo que não tem nada a ver com a sua cultura é o caso do desvairado zouk das Antilhas, somente por objectivos comerciais.

Como se não bastasse, a música africana em Portugal debate-se com outro obstáculo à sua afirmação que é a deficiente rede de distribuição. Existem apenas 6 ou 7 pontos de venda em Lisboa conhecidos da comunidade africana mas não do público em geral.

Para terminar o ideal seria que existissem programas de africanos para africanos isto é um espaço onde os africanos pudessem mostrar a sua cultura nua e crua ou seja entre outras coisas programas onde os cantores africanos pudessem cantar usando instrumentos típicos africanos. Pois nota-se que com esses novos ritmos impostos visando apenas o lucro das editoras que uma parte muito importante fica de fora "os Velhos africanos" , a quem esse tipo de música não diz absolutamente nada.

Apesar de existirem a RTP África e a RDP África , nada altera o que acima foi dito pois estes canais , para além de auto-promoverem Portugal apenas servem os interesses de uma minoria .

 

  


 

Bibliografia

 

Obra : Lisboa Africana

Autor : Elza Rocha, José Agualusa, Fernando Semedo

Editora : Edições Asa

Obra : Os Negros em Portugal : Uma Presença Silenciosa

Autor : José Ramos Tinhorão

Editora : Caminho

 

Entrevista com o Músico Angolano Bonga

Entrevista com o Musicólogo Angolano Jorge Macedo

 

 

 

O Web de Cultura Portuguesa foi actualizado a 15 Fevereiro 1999
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